A encarnação como evento espiritual

03/12/2011 19:26

“O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, e uma luz brilhou para os que habitavam um país tenebroso.” (Is. 9,1)

 

Quando falamos em advento, logo nos vem à mente, um tempo de vinda, de chegada. Mas para que alguém chegue, é necessário que exista outro a sua espera. Poderíamos elucidar este quadro da seguinte forma: quando, em nossas casas, estamos esperando um convidado, estamos num “tempo de advento”. Portanto, só irá ocorrer o ato da visita se tivermos um visitante e um hospedeiro. E para nós cristãos, quem é o hóspede? E os hospedeiros? Será que os mesmos estão com suas casas enfeitadas, com suas lâmpadas abastecidas de azeite ou estão vazias? (cf. Mt 25, 1-13). Não o é diferente para a vida eclesial, que se coloca nesta espera ansiosa e alegre, pois se espera Alguém que vem e continuará sempre conosco, que nos trará somente alegria, porque veio nos visitar. Deus quis nos visitara! Deste modo, celebrar o advento e preparar-se para o Natal é preparar a Festa do Sol Nascente que nos veio visitar, libertar de nossas escuridões e guiar nossos passos no caminho da paz (Lc 1,78s). Assim, uma pergunta deve ecoar em nosso coração: o que é esta festa significa para a minha vida cristã? Que elementos enriquecem a minha vida espiritual? Que mudanças percebo em minha vida ao celebrar esta festa e tocar no mistério do Deus nascente? Ou não me diz absolutamente nada à minha vida e à minha fé?

            Uma das belas experiências do povo de Israel, é ter percebido que Deus está sempre em constante movimento. Deus cria o universo, caminha no deserto, olha para o sofrimento do povo. Não é um Deus fechado em si mesmo, mas é caminhante na história. Isso tem implicâncias para a vida, pois provoca o ser humano crente a sair do seu mundo pessoal, egoístico e a lançar-se em novas direções.

            Durante muito tempo a teologia cristã apresentou um Deus distante, intocável e isso, muitas vezes, criou a mentalidade do “todo-poderoso” em relação ao “todo amoroso”. Hoje, resgata-se a paternidade e a maternidade fecunda e próxima de Deus, embora há aqueles que preferem deixá-lo escondido nos céus.

            Resgatar o conceito de Deus bíblico, caminhante com o povo, permite proximidade, alteridade, intimidade, mostrar-se tal como se é, sem medo, e saber que, antes de tudo, se é amado (a).

            Mas o Deus bíblico, especialmente no AT, não podia ser visto (Ex 3,6) e não podia ter o seu nome pronunciado, segundo os israelitas. Entretanto, num determinado momento da história acontecesse um evento que rompe o véu de muitas concepções teológicas da época, e por que não também de hoje? Aquele Deus que caminhava com o povo, num gesto de profundo amor, torna-se visível e pode ter o seu nome pronunciado. E deixa todos os atributos de poder, de força e assume-se como condição humana, num determinado lugar, Belém.

Em Filipenses 2, 6-7, encontramos um belíssimo hino que diz: “Ele tinha a condição divina, e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo, tornando a semelhança, e achado em figura de homem.

Deus agora está em meio a nós, nas palavras de São João, o “Verbo” armou a sua tenda no meio de nós. É uma nova criação, é o homem novo e, nele, todos somos todos renovados. A palavra do Pai provoca ação em cada pessoa da humanidade, remodela-a, em seu filho Jesus, o Deus-menino de Nazaré.

A encarnação significa que se ele torna um de nós, e agora a humanidade deve tornar-se plenamente humana e divina nele, a Sede da humanidade.

            Para compreender tudo isso não basta o olhar de uma fé superficial, mas uma fé que emana de olhos dos pequenos, do coração, do lugar de onde se é o que é, centro da consciência.

Na narrativa da anunciação, encarnação e nascimento de Jesus somente aqueles que tinham um coração simples foram capazes de compreender ou de se sentiram tocados: Maria, José, os pastores, os magos, Semeão, Ana e tantos outros que os evangelhos deixam em silêncio. Aqueles que tinham muito poder, ao contrário, usaram as forças para tentar liquidar esta boa notícia, todos os projetos de esperança (Lc 2; Mt 2). Na verdade, todos estes personagens representam a humanidade com a sua capacidade de transcendência ou de negação do mistério divino.

A encarnação é algo de muita vida, é a vida por excelência. É a vida de Deus na vida, no cotidiano humano e esse cotidiano em Deus. É vida no seu profundo mistério...

Este evento toca os porões escuros, lá onde não há vida. Aliás, o evangelho  de Lucas nos coloca na lógica de resgate da vida. Vejamos: após descrever o anúncio do Anjo à Maria (Lc 1, 26-39) coloca duas cenas: a visita de Maria à Isabel (Lc 1, 39-45) e o Magnificat, o canto de Maria (Lc 1,46-56). O que isso tem a ver com a Encarnação?

Isabel e Zacarias tinham idades avançadas (Lc 1,18), ou seja, eram estéreis, não podiam gerar nova vida, algo que no mundo antigo era uma maldição. Quando Isabel recebe a visita, a criança que está em seu ventre salta, significa dizer que aquela realidade agora é plena de vida, porque encontra a Vida Plena que está no ventre de Maria. Mais uma vez humanidade (João) e divindade (Jesus) encontram nas páginas da história.

Outro elemento importante, o cântico de Maria, que retoma um canto antigo de Israel, o canto de Ana (1Sm 2,1-10), que traduz a esperança dos pobres, de todos aqueles que não tinham vida, vitimas dos diversos tipos de exclusões. Assim, Maria, plena de Deus, canta o canto novo, de que um mundo novo é possível, na humanidade de Deus, que se fez povo, carne, pequeno, para arrebentar as prisões da esterilidade.

Deste modo, todo este evento nos faz refletir sobre qual o tipo de vida que estamos gerando e o canto que estamos cantando, se é um canto de morte, ou aquele que traz a esperança profética, capaz de fecundar os ventres estéreis das diferentes realidades do mundo atual.

            Este acontecimento tão cheio de vida, hoje, parece perder sua força. Quando se fala de Natal, as propagandas veiculam uma série de fatores que fazem parte da realidade desta festa: família, encontro, alegria. Porém, conecta-a ao consumo. Celebrar o natal é consumir um produto da marca X ou Y. Por detrás, há uma lógica perversa de um capitalismo selvagem, seletivo, excludente que pauta as pessoas pelo poder econômico.

            As propagandas televisivas trazem um papai Noel com um sorriso artificial que por detrás da face, esconde elementos sutis de exclusão social, de preconceitos. Onde estão as crianças pobres, negras, marginalizadas e doentes?

            O Natal do cristão pode e deve comportar a festa, a família, os amigos, os presentes, no entanto, isto deve ser um motivo para se reunir e celebrar a vida na sua densidade e profundidade e deixar ser tocada por ela. Sentir a vida do outro que nasce em mim e da minha que contagia o outro, à luz do grande sol nascente que nos veio iluminar.

            Todo o ciclo do Natal nos remete à espiritualidade de encarnação na realidade, especialmente dos mais pobres e abandonados e do esvaziamento amoroso de Deus à humanidade. Recorda que cada pessoa, por vocação, também deve se fazer carne em meio a uma humanidade dividida, que tem medo do outro.

            Convoca-nos a revisar nossa existência, perceber nela a encarnação do mistério do Deus vivo e fazer também do nosso coração a grande gruta de Belém que acolhe o projeto redentor de Deus. Portanto, isso requer mudança de atitudes. Natal pode ser só mais uma festa se o nosso coração não for contagiado pelo Verbo Encarnado que habita em cada um de nós!