A experiência de intimidade com Deus: existir e ser Nele

23/05/2011 18:39

Dentre tantos presentes a nós concedidos por Deus está a vida. Cabe transformá-la e a cada dia recriá-la. Recriar a vida cotidianamente é trazer dentro de si a dinâmica criadora que Deus insuflou dentro do coração humano por meio do seu Espírito divino. É esta força que possibilita uma vida densa, aberta a Deus, colocando-o sempre como nosso companheiro na nossa história de salvação.

 

A fé que professamos em Deus

Santo Irineu (130-200 d.C) afirma: “com efeito, se a manifestação de Deus, através da criação dá a vida a todos os seres da terra, muito mais a manifestação do Pai, por meio do Verbo, dá a vida a todos os que vêem a Deus” (Tratado contra as heresias)

A fé cristã nos diz que Deus é criador de todas as coisas, das visíveis e invisíveis. Dentro da dinâmica da criação o ser humano apresenta essa característica de ser visível e invisível. Visível enquanto realidade que se manifesta, palpável, com todas as suas ações; invisível porque é mistério. Embora, mistério no seu sentido originário é alguma coisa que aparece e se esconde, o mistério humano terá as suas extremidades confluídas em Deus. É nele que o ser humano saberá quem realmente o é.

Desse modo, quando o cristão professa a sua fé em Deus, não faz somente uma adesão externa de ser pertencente a determinado credo religioso, mas é adesão profunda, que abrange todo o mistério humano. Neste ato, está o desejo humano de experimentar a vida divina na vida humana. Assim, professar a fé cristã é ter sempre a saudade incontida de Deus, de onde viemos e para o qual um dia retornaremos.

Esta saudade de Deus é a nossa espiritualidade. Quando amamos alguém, enviamos carta, flores, presente. Fazemos alguma coisa para que nos tornemos presentes na vida de quem queremos bem. Em nosso relacionamento com Deus, isto se manifesta na construção do nosso itinerário espiritual e a nossa vida de oração, meditação, contemplação e ação é a nossa maneira de cultivar o nosso amor a Deus. Portanto, a nossa vida espiritual, o nosso comprometimento com a realidade é a nossa carta amorosa a Deus de cada dia.

 

Nosso existir em Deus

Somos e existirmos em Deus. Pensando de modo mais simples, significa dizer que a vida humana é direcionada a um fim último que é Deus, quem nos concedeu a vida. Ser existir em Deus pressupõe dois elementos básicos: fé na vida e no ser humano.

A fé na vida é fundamental para que o ser humano construa a sua história. Caso contrário, ao afrontar as diferentes intempéries da vida, incorreria no desespero.

Vida aqui não é só uma realidade biológica, mas é dimensão criativa humana, no seu processo existencial e relacional que se manifesta como dom e graça.

A vida como dom e graça não é fechada em si. Aliás, é a partir dessa abertura que se pode inter-relacionar com Deus e com os demais seres humanos. Então, essa fé na vida apoiada sobre dom e graça, fundamentada em Deus e na confiança no humano, faz-nos lançar a cada dia nas estradas do viver cotidiano com esperança transformadora e vivificante.

Acreditar no ser humano também exige ato de fé, começando a partir do crer em nós mesmos com as nossas fraquezas cotidianas. Mas recordando Paulo em 2Cor 12,10 “quando sou fraco e que sou forte”, isso possibilita a percepção de que o humano é a condição dada a cada um para que exista. É na realidade humana que o ser humano deve se construir como pessoa, sabendo-se frágil, mas forte no amor ao seu semelhante. É essa possibilidade dada ao ser humano de manifestar a glória de Deus. Assim, pode-se dizer com Santo Irineu “a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”.

A fé na vida e no humano nos faz existir em Deus e, não nos escandalizemos, vai além de um credo religioso. Há pessoas que possuem uma profunda fé na vida e no ser humano – fazem de suas vidas uma doação profunda e afirmam não pertencer a nenhuma religião – dão um testemunho ao mundo, possuem uma espiritualidade profunda. São pessoas que captaram na profundidade o existir em Deus.

Do ponto de vista da fé cristã não é diferente. Olhando para a história do Cristianismo com todos os erros e acertos, nos momentos em que tudo parecia sem direção sempre apareceram pessoas que, por acreditar na vida, no ser humano e em Deus, deram significado novo à história. Intuíram a realidade mistérica de existir em Deus.

O nosso existir em Deus não é só realidade última – o nosso pós-morte – começa no “agora” da vida e significa uma conformidade com a vontade de Deus. É deixar que Deus habite o templo humano – em nós e nós habitarmos Nele.

Este existir em Deus nos dá uma realidade nova, permite-nos ser. O nosso ser é conformado, modelado e aquilo que experimentamos da vida divina tem incidência sobre o nosso agir cotidiano: somos seres portadores dos valores do Reino, seres espiritualizados pela força dinâmica do Espírito de Deus e que transformam a realidade, especialmente quando é sofrida, em favor do outro. Existir e ser em Deus é comprometer-se com o mais pequenino dos nossos irmãos.

 

Intimidade e comunhão com Deus

Uma das características do amor e da amizade é a intimidade. Também não o é diferente na vida espiritual. Santo Agostinho (354-430 d.C) em suas Confissões assevera: “tu era mais íntimo a mim que a minha própria intimidade” (Conf. III,6). Este pensamento nos ajuda a meditar sobre a nossa comunhão com Deus, isto é, o nosso existir e ser Nele.

Essa íntima comunhão com Deus deve ser a nossa meta cotidiana e devemos pedi-la sempre a Deus. Ela nos vem como graça e se traduz no esforço humano de cada dia melhorar as próprias atitudes. É uma dimensão encarnada na vida. Não se trata de caminho fácil, é necessária a ascese – isto é, o exercício de cada dia fazer nascer sempre o homem/mulher novos, por meio do Espírito (Jo 3,9-15).

Este aspecto da intimidade com Deus tem o seu aspecto individual, porém deve incidir numa prática comunitária. O nosso existir em Deus projeta-nos para o ser comunidade que nos remete novamente a Deus, uma vez que o próprio Deus é comunidade, na Trindade. Esta experiência somos chamados a fazê-la, basta que confiemos em Deus e em nós mesmos.