A morte: Renascer em Cristo à Vida Nova!

01/12/2011 18:40

Todo ser humano depara-se com a vida e com a morte. Estas duas realidades opostas fazem parte da experiência humana. Só é possível a vida se se passar pela crise da morte. Ao sair do ventre materno, morre-se para aquele mundo seguro, protegido, mas que, ao seu tempo, expulsa a vida, senão ela morre. A criança ao se tornar adolescente e adulta experimenta uma morte, caso contrário, está fadada a ser eternamente imatura. Estas “mortes” são compreendidas de um modo tranqüilo por todas as pessoas, pois não implica experiência existencial profunda, diferentemente do deixar de existir neste mundo, fenômeno que afeta todos os seres humanos. A morte é algo que acontece, interrompe a vida, projetos, sonhos de uma pessoa e afeta todo o círculo relacional de quem morreu – familiares, amigos, etc. Faz parte das perdas existenciais significativas.

Esta é a maior certeza que podemos ter na vida, a incerteza – quando e como vem. Se uma pessoa se apegasse a essa realidade seria um passo para a neurose. Portanto, a morte coexiste com a vida e consiste num dos grandes mistérios que ao ser humano não é possível desvendar. Não conseguimos dar uma palavra final sobre o que acontece depois, está na dinâmica do mistério, porque aqueles que já morreram nunca se comunicaram conosco. Há um silêncio abissal, angustiante e a saudade prolonga-se pelo tempo com a esperança do encontro.

O filósofo alemão contemporâneo, Heidegger (1889-1976), diz-nos que o ser humano é um ser-para-a-morte e afirma que podemos ter uma existência autêntica ou inautêntica. A morte faz-nos refletir sobre a vida, e quanto mais intensamente vivermos, mais teremos uma existência autêntica perante o mundo que habitamos. Do ponto de vista da fé cristã, viver autenticamente consiste em valorizar a vida como dádiva e vivê-la dignamente, bem como compartilhá-la com o próximo, na sua profunda totalidade. A existência inautêntica é a banalização da vida, desvalorizada, sem sentido, legada ao vazio existencial.

Diante disso, a crença na vida pós-morte, ressurreição, não seria apenas um subterfúgio, uma metáfora ou um eufemismo para nos livrar da dura realidade que é a morte? Não, conforme os ensinamentos da fé cristã! A verdade é que a nossa fé arremessa-nos para a crença na vida nova, de modo que a morte não passa a ser o abismo intransponível, mas o desvelamento de um novo ser humano habitante em Deus e que tem nele uma vida nova. Deste modo, a experiência da morte é a da semente lançada na terra que desaparece para que uma vida nova. Somos esta semente que um dia voltaremos à terra para florescermos nos jardins do Criador e Nele, sermos recriados de uma nova maneira, que não compreendemos a não ser pela dinâmica da fé.

Na concepção bíblica a morte é algo que abrange a totalidade do ser humano e a transformação inteira do seu ser. A idéia de vida após a morte começa a ficar clara no século II a.C, embora as Escrituras sempre mencionem a realidade da morte. Em Dn 12, 2 há uma afirmação clara da ressurreição, onde encontramos a expressão vida eterna: “E muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão: uns para a vida eterna e outros para a vergonha e a infâmia eterna. Em 2Mc 7, 9 que aparece esta afirmação: “ao exalar o último suspiro, disse: ‘Tu,ó criminoso, nos excluis da vida presente, mas o Rei do universo nos fará ressurgir para uma vida eterna a nós que morremos por suas leis”. É em Jesus que tudo isso se plenifica ao afirmar: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais (Jo, 11,25s). Paulo nos diz que se morremos com Cristo, viveremos com Ele (Rm, 8).

Se afirmamos crer na vida pós-morte e isso professamos, devemos perguntar-nos como estamos preparando-nos para a ressurreição. Caímos no risco de deixá-la para o amanhã e esquecermos-nos das experiências de ressurreição em nosso cotidiano: o sol que a cada dia levanta no horizonte, o despertar de cada dia, a flor que desabrocha, a vida que nasce, o sorriso que se abre, a doença curada, a esperança de um dia melhor, a utopia do amor que dispensamos a quem amamos e perdoamos. Assim, a ressurreição acontece, em primeiro lugar, na simplicidade das pequenas coisas da vida. Afinal, somente quem tem profunda fé na vida, consegue viver, e somente quem a torna dádiva, a ars vivendi (arte de viver), sabe renunciá-la e se prepara para a ars moriendi (arte de morrer) na serenidade e na sabedoria. Portanto, a intensidade da ars vivendi projeta-nos para o kairós da ars moriendi!

Muitas pessoas compreendem a ressurreição como algo distante – algo para o futuro. Ao contrário, ela começa a partir do momento de nossa existência, com as nossas atitudes que geram vida. São as pequenas ressurreições cotidianas. É a partir delas que compreendemos a nossa grande Ressurreição em Jesus Cristo, Vida Plena, que jamais será aniquilada. A ressurreição é a transformação de uma maneira de ser para outra, isto é, a forma muda, mas o ser da pessoa permanece e a forma exterior não é a do corpo atual. Não se pode entendê-la como revitalização de um cadáver. A experiência da morte-ressurreição é o momento que nos tornamos definitivos, adquirimos a plenitude da liberdade e do conhecimento, porque passamos a ver a realidade com o olhar de Deus[1].

À luz da própria Ressurreição de Jesus devemos compreender a nossa ressurreição.  Ela é um processo em que somos assumidos no próprio Cristo Jesus, na sua morte e ressurreição e, sem jamais, esquecer-nos das nossas ressurreições cotidianas que acontece todos os dias de nossa vida. As atitudes de bondade, de acolhimento e de amor ao próximo são evidências da ressurreição na vida humana! “A ressurreição está acontecendo; é um processo em curso. Um coração se abriu ao outro coração no amor e no perdão? Aí aconteceu a ressurreição! Criaram os homens relações entre si mais justas e fraternas? Aí se realiza a ressurreição! Houve algum crescimento da vida, especialmente dos oprimidos e condenados? Aí se manifesta a ressurreição! Morreu alguém na bondade da vida ou sacrificado em bem de seus irmãos? Aí se inaugurou plenamente a ressurreição!”[2]

Quando recordamos nossos entes queridos que morreram, recordamos a memória deles, celebramos suas vidas é um convite a pensar sobre a vida e no ato de entrega da mesma, que iremos fazer um dia; recorda a fragilidade e ajuda-nos a trilhar os caminhos do essencial. Nada levamos, apenas fica o bem que fazemos. Conforme a promessa, na casa do Pai há muitas moradas, diz Jesus (Jo 14, 2-7). Resta-nos a espera e a prudência das virgens (Mt 25, 1-13), pois quando o noivo chegar seremos chamados a ir com ele para caminhos desconhecidos, mas de coração tão alegre, porque vivemos tão intensamente a vida nesta terra que agora podemos entregá-la como um grande tesouro ao Criador, que nos criou e, por nos amar incomensuravelmente, nos quer novamente junto Dele.


 

Foto disponível em: http://www.femininoessencial.com.br/imagens/ser_raiz.jpgacesso em: 01 dez.2011.


[1] Para um bom estudo: BLANK, Renold J., Escatologia da Pessoa, São Paulo: Paulus, 2000.

[2]Leonardo BOFF. Via Sacra da Ressurreição, op. cit. Leonardo BOFF. Seleção de Textos Espirituais. Petrópolis:Vozes, 1991, p.75.