A oração: intimidade e comunhão com Deus

11/04/2011 18:20

 Em artigos anteriores, oferecemos aos nossos queridos leitores e leitoras, especialmente leigos e leigas, homens e mulheres inseridos na sociedade com suas diversas atividades,  conteúdo para que possam crescer espiritualmente e ter uma vida espiritual mais profunda e serem pessoas místicas. Entretanto, isso não é possível sem uma vida oracional, uma das forças motrizes da mística. Assim, neste texto explanaremos sobre a oração.

 

A arte de dialogar

 

Eis um exemplo para entender a dinâmica da oração. Quando conhecemos uma pessoa há, dentre tantos sentimentos, dois mais freqüentes: antipatia e simpatia. A simpatia permite-nos aproximar dela e, à medida que se dialoga, relaciona-se, cria-se um vínculo mais profundo e gera a amizade. Um rapaz e uma moça encontram-se, simpatizam-se, começam um processo de enamoramento e chegam-se à conclusão que podem constituir a vida juntos. Isto é possível pelo diálogo que permite ampliar laços e pela intimidade que os fez conhecerem-se mutuamente e amarem-se cada vez mais. Trata-se de um EU que vai ao encontro de um TU e experienciam-se e ampliam seus horizontes individuais. Esta atitude requer de ambos abertura, disponibilidade, arte e criatividade.

 

Compreender a oração

 

Em primeiro momento, podemos dizer que a oração é um diálogo de amor do ser humano com Deus e de Deus com o ser humano. Há um ser humano que fala e Deus que escuta. Um Deus que fala e um ser humano que escuta e, aos poucos, esse diálogo se torna cada vez mais íntimo – comunhão. Assim, oração é a experiência da intimidade  e da comunhão mais profunda de uma pessoa com Deus.

Para Santa Teresa d’ Ávila (1515-1582), grande mestra espiritual, a oração é trato amoroso com Deus, isto é toda a forma de comunicação interpessoal com Deus, na familiaridade e na simplicidade. É um diálogo de amor e de amizade com Ele. Deus e ser humano doam-se.

Deste modo, orar é colocar-se, numa atitude de fé perante Deus, com o coração aberto, num diálogo de profundo amor. É tocar a vida do próprio Deus e experimentar o tudo Dele e deixar-se tocar por Ele, no tudo humano, ainda que por causa dos limites não se consiga abarcá-Lo por causa da grandiosidade. É não ter medo de Deus, e experimentar o fascínio, numa atitude de Graça.

A oração é a atitude de gratuidade frente Àquele que nos criou sem exigir de nós nada em troca, a não ser o amor a tudo aquilo que por Ele foi criado.

Na oração, é preciso levar em conta o caráter da interioridade, isto é, a profundeza do nosso ser, porque é relação afetiva com Deus e com os irmãos. Uma oração que se limita apenas ao racional é meramente um discurso camuflado, com aspecto sacral.

 

Oração e ação

 

A oração deve nos interpelar a uma prática tranformadora. Há quem pense que só a oração basta. Ela é importante, todavia, se não comprometer a pessoa, corre um sério risco de ser individualista e vertical (eu e o meu Deus!). Deve envolver a totalidade humana e tornar-se testemunhal, porque o alicerce está fundado nas ações de Jesus que orou – comunhão com o Pai –  e agiu – o encontro com as pessoas – ao chamar os discípulos, curar, perdoar (cf. Lc 6,12-19).

 

É uma prática que deve contemplar o rosto das pessoas sofridas, vítimas da exclusão de nosso tempo e a evitar tudo o que é prejudicial à vida pessoal e à do próximo. Abrange a inteireza do ser humano, o corpo-alma-espírito, de modo que quando vamos rezar nos levamos totalmente. Somos passado e presente e futuro que vislumbra, somos afetividade, subjetividade, racionalidade, fé, esperança e amor.

 

Orar o cotidiano

 

Muitas pessoas vivem a correria do seu dia-a-dia e não encontram tempo para rezar. Outras alegam não tê-lo, no entanto, perdem-se em futilidades. O que fazer, quando não se tem, de fato tempo, para essa conversa íntima com Deus? Proponho duas modalidades muito simples. A primeira, a oração de quem não tem tempo. Ao sair para as atividades cotidianas, aonde quer que esteja reze: “Deus caminhe comigo!” Medite até ser capaz de contemplar – olhar a realidade com os olhos de Deus. Outro modo, é tomar um pequeno versículo bíblico, como por exemplo: “O Senhor é o meu Pastor nada me falta” (Sl 23(22), 1)/Senhor tu me sondas e me conheces” (Sl 138 (139),1) e repetir em forma de jaculatória ao longo do dia, como se sussurrasse nos ouvidos de Deus.

É importante, no momento de pausa, rezar a história pessoal e o cotidiano e ofertá-lo a Deus, numa grande ação de graças. A oração dever ser calcada na vida, na realidade histórica, dom precioso, gratuito de Deus. Nessa mesma gratuidade tal qual o Criador nos fez, oferecer as primícias do nosso ser e aquilo que construímos durante o nosso cotidiano: alegrias, tristezas, sonhos, fracassos, ressentimentos.

O que importa para Deus é a dádiva, ao você dizer: “Senhor, eis-me aqui, oferto-me, nesta oração, todo o meu ser, tudo o que consegui realizar neste dia de hoje!” Essa atitude liberta das diversas formas de egoísmo e torna o ser humano simples como o próprio Deus e percebê-Lo na simplicidade das coisas corriqueiras.

Se a vida se torna oração e conseguimos meditá-la, é possível atingir o que denomino de mística contemplativa do cotidiano. Posso afirmar que é a maneira mais fácil e mais exigente de orar, pois depende apenas da pessoa, e nem sempre ela se permite a este evento. Deus já está de braços, coração e ouvidos aberto a escutar e, na sua pedagogia paternal, guia por caminhos tenebrosos e desconhecidos com segurança.

 

Conclusão

 

O cultivo da oração diária é importantíssimo para o cristão, seja pessoal e comunitária. Uma não deve se desprender da outra. A oração, a meditação e a contemplação fazem parte do espírito humano e tem implicações na vida. Se no mundo cristão se levasse a cabo a Palavra de Deus, a vida de oração, a meditação e a contemplação haveria, sem dúvida, maior sentido e abertura para a vida e, por conseqüência, muito maior solidariedade ao próximo. Há exemplos de pessoas que conseguiram levar uma vida orante e se lançaram à ação em favor daqueles que não tem ninguém por eles. Madre Teresa de Calcutá rezava quatro horas por dia; D. Helder levantava-se de madrugada e se colocava por horas e horas em oração. E assim, muitos outros. Foram pessoas que transformaram a vida numa constante prece, tendo grande incidência e transformação em suas vidas, tanto pessoal, quanto comunitariamente.

No próximo texto proporemos um caminho para ajudar nossos caros leitores a aprofundarem a vida oracional, a Leitura Orante da Palavra de Deus.

 

 



[1] Redentorista e reside em Campinas e trabalha no Instituto Filosófico São Clemente como Formador dos estudantes de Filosofia redentoristas. E-mail: rogercssr@yahoo.com.br