A Leitura Orante da Palavra de Deus

02/05/2011 22:40

  Anteriormente refletimos sobre a Oração. Agora, proporemos um método de oração, visando o aprofundamento espiritual de nossos irmãos e irmãs leigos. Trata-se da Leitura Orante (Lectio Divina).

 

A história da Leitura orante

 

A prática da Leitura orante é tão antiga quanto a própria Igreja. Ela surgiu com a própria Igreja. Entretanto, o termo Lectio Divina vem de Orígenes (185 a 254), mestre da grande e famosa Escola de Teologia, em Alexandria (Egito) no séc. III. Depois se estendeu ao monaquismo com os eremitas (homens e mulheres que viviam na solidão do deserto e praticavam uma vida de penitência), aos cenóbios (pequenos núcleos de vida comunitária) e à Vida Religiosa com São Pacômio, São Basílio, Santo Agostinho e São Bento.

A sistematização, em quatro passos deu-se no século XII, por um monge cartuxo (ordem religiosa monástico-eremita de grande austeridade, solidão e pobreza fundada por São Bruno em 1066) chamado Guigo, por volta de 1150. Ele dedicou essa obra ao seu irmão Gervásio.

O livrinho chamava-se a Escala dos Monges ou Escada dos Monges, como preferem alguns autores, composto por quatro degraus, a saber: leitura, meditação, oração e contemplação e é um caminho orante para os noviços essa regra.

Até o século XIII a Lectio Divina estava restrita à vida monacal. Mas nesse mesmo século, especialmente São Francisco, tenta adaptá-la à vida do povo.

Com o movimento da Reforma (séc. XVI) houve um enfraquecimento da leitura orante, uma vez que a leitura da Bíblia fora proibida e tirada das mãos do povo e da Vida Religiosa. Constituiu-se um período de grande vazio.

A partir do Vaticano II, com a Dei Verbum nº 25 houve uma retomada, especialmente no Brasil da leitura orante e esta chegou até à Vida Religiosa.

Esta oração ajuda-nos a compreender as coisas de Deus. Com ela, aprendemos a fazer leitura orante da Bíblia e da Vida. Na leitura da Bíblia vamos desenvolvendo uma atitude de discipulado e de contemplação. A mesma escuta que eu faço da Bíblia é o que eu faço com o irmão.

 

O que se busca com esta oração?

 

O que se visa alcançar com a Leitura Orante? Os textos abaixo ajudam-nos a compreender:

Dt 30, 14: “Sim, porque a palavra está muito perto de ti: está na tua boca e no teu coração, para que ponhas em prática”.

2Tm 3, 15: “Desde a tua infância conheces as sagradas Letras; elas têm o poder de comunicar-te a sabedoria que conduz à salvação pela em Cristo Jesus”.

E em Lc 24, 25.27.32-35: “Insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram (...) E, começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todos as Escrituras o que a ele dizia respeito. (...) E disseram um ao outro: ‘não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?’”

Portanto, esta palavra de sabedoria está no centro da nossa consciência humana, ardendo no coração densificando a nossa fé para que cheguemos à plenitude, a salvação em Jesus Cristo.

 

Alguns fundamentos para uma leitura cristã da Bíblia.

 

Nessa leitura é importante:

a)      O olhar e a escuta atenta à Realidade

b)      A leitura respeitar o texto, não manipulá-lo.

c)      Ligar a fé com a vida.

d)     Fazer uma leitura libertadora e ecumênica

e)      Ler o texto comprometendo-se com as causas dos pobres –  leitura inclusiva

f)       É uma leitura fiel – a Bíblia lê a vida e a vida lê a Bíblia.

g)      E uma leitura que leve em consideração a Comunidade

 

Os passos da leitura orante

 

Após levantar em consideração os elementos acima, coloque-se num lugar tranqüilo, encontre o seu santuário e, por alguns instantes, faça a invocação ao Espírito Santo. Ele é o grande iluminador da oração. Escolha um texto bíblico e aplique os passos a seguir com muita calma e paciência:

 

1.      Leitura: a pergunta que ajudará nesse passo é: O que diz o texto?

·         Tomar a Bíblia e ler várias vezes e com a convicção que Deus nos fala

·         Numa atitude de internalização, silenciar-se para OUVIR Deus

·         O texto bíblico é como uma fonte, cada dia brota água nova

·         Fazer um processo de apropriação, torná-la quase nossa palavra

·         Ver os verbos mais importantes do texto, eles expressam a ação.

·         Situar o texto no seu contexto, literário, histórico e teológico

·         Onde escreveu o texto? Quem o Escreveu? Qual o contexto histórico? Como o povo percebia Deus?

·         Entrar no texto de forma empática.

·         O que Deus tem a dizer para mim?

·         Conhecer, respeitar o texto.

·         Comparar com outros textos da Bíblia

·         Estreitar a distância entre o passado e o hoje

·         A leitura é o ponto de partida, é a preparação para o diálogo da meditação.

 

·         2. A meditação pode ser pessoal ou comunitária. Neste passo você deve perguntar: O que o texto me diz? Esta etapa consiste em:

·         Refletir, aprofundar o texto

·         Repetir as palavras significativas

·         Ruminar: tirar uma frase do texto, transformá-la numa jaculatória

·         Buscar a verdade oculta, trazida pela meditação, do texto: ver o que dá força, hoje, para enfrentar a realidade.

·         Quais os conflitos de ontem e de hoje?

·         O que a mensagem do texto dizia para aquele tempo? E para hoje?

·         O texto ilumina a vida e a vida ilumina o texto

·         Dialogar com a palavra, atualizá-la trazendo-a para o horizonte de nossa vida, no hoje de nossa história.

 

3. A oração. Aqui você perguntará: O que o texto me faz dizer a Deus?

 

·         Conversar com Deus a partir do texto

·         Responder às interpelações que Deus faz por meio do texto.

·         Assumir uma atitude de adoração, louvor, súplica

·         Agradecimento e perdão

·         A leitura orante ajuda a integrar texto + realidade + comunidade

 

4. A contemplação: ver a vida, a história e toda a realidade com os olhos de Deus, a partir do texto.

 

·         Aquilo que fica na retina dos meus olhos

·         É mergulhar no mistério de Deus

·         É saborear Deus

·         Ver a manifestação de Deus, teofania

·         É mergulhar na realidade, compromisso com a vida

·         É silenciar sob o olhar amoroso de Deus

·         É sentir-se tocado, envolvido, amado, aceito, acolhido, perdoado, pacificado

·         É permanecer na receptividade, na Presença

·         Dar espaço para Deus, para o próximo e a realidade da vida, afetivamente

·         Ver o mundo com um novo olhar.

 

5. A ação: a hora de lançar-se além

 

Um pouco além das quatro etapas que Guigo propôs, sugerimos a ação, porque orar leva a uma prática, a perceber com muito mais sensibilidade o mundo que vivo. Conduz-me a uma prática testemunhal cotidiana.

Por fim, como um exercício de oracional, experimente rezar a parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 29-37) e a Samaritana (Jo 4, 1-42) utilizando os passos acima. Poderá fazê-lo tanto individual como comunitariamente.



[1] Redentorista e reside em Campinas e trabalha no Instituto Filosófico São Clemente como Formador dos estudantes de Filosofia redentoristas. E-mail: rogercssr@yahoo.com.br