Amizade: um caminho espiritual

08/08/2011 07:45

Este texto tem o objetivo de fazer uma reflexão sobre um evento da vida humana, muito importante e que, além de antropológico, pode ser visto à luz da espiritualidade. Trata-se da amizade.

 

Uma tentativa de definir o indefinível

Santo Tomás de Aquino define a amizade como querer o bem para alguém (Suma Teológica 1, 20, 2). Para Santo Agostinho “a plena amizade se dá quando podemos confiar ao outro as nossas idéias” ( As Diversas Questões – 83, 71).

A amizade é um encontro face-a-face com o outro, com um olhar transcendente que abarca o Tu dentro de um Eu e vice-versa. “O homem se torna Eu na relação com o Tu. O face-a-face aparece e se desvanece, os eventos de relação se condensam e dissimulam e é nesta alternância que a consciência do parceiro, que permanece o mesmo, que a consciência do Eu se esclarece e aumenta cada vez mais” (Martin BUBER. Eu-Tu).

Uma amizade não se consegue de um dia para a noite. São necessários o encontro, a reciprocidade, o movimento e o conhecimento. Certamente cada amizade tem a sua história, algumas são similares, outras não. Há aquelas que surgem em contextos dramáticos em que numa situação alguém estendeu a mão àquele (a) necessitado (a). Naquele momento as pessoas envolvidas sofrem uma alteração em suas vidas e uma começa a fazer parte da vida do outra. Outras surgem num encontro, assembléia, numa festa, celebração, etc. Ora, em todos os casos há encontro. Junto a ele está a empatia. Essa empatia emana do “Eros” que temos em todos nós.

A amizade verdadeira surge quando experimentamos o ser do outro (a), numa relação contemplativa. Dessa relação entre as pessoas surge a amizade. Amamos as pessoas quando, mesmo em meio às fraquezas e limites do próprio ser humano, conseguimos fazer a experiência da transfiguração. A amizade como experiência da transfiguração, é o momento em que conseguimos ver o outro em espírito e verdade.

Não sejamos ingênuos, pensando que todas as pessoas deverão ser amigas umas das outras. É bom lembrarmos que a amizade é para poucos e que os graus de amizade oscilam de pessoa para pessoa, porque cada um tem uma tipologia psico-físico-afetiva diferente.

A profundidade da amizade não se mede pela quantidade de amigos que se tem, mas pela qualidade dos relacionamentos que ajudam no crescimento e maturidade pessoal de cada um.

As Sagradas Escrituras nos trazem elementos que nos permitem uma reflexão salutar acerca desse dom gratuito de Deus a nós. “Amigo fiel é proteção poderosa, e quem o encontrar, terá encontrado um tesouro. Amigo fiel não tem preço, e o seu valor é incalculável. Amigo fiel é remédio que cura, e os que temem ao Senhor o encontrarão” (Eclo 6, 14-16).

A experiência da amizade se realiza quando nos tornamos significativos para o outro. A amizade é uma individuação, ou seja, é quando tiramos alguém da multidão de anônimos ou somos tirados e damos ou redebemos um nome. Quando isso acontece a pessoa não é alguém perdida em meio às demais, mas ganha um nome que será significativo para ambos, porque essa experiência acontece de modo recíproco.

Isso se torna possível quando se elimina a categoria da indiferença. Todos os seres humanos são chamados a vivenciar este encontro com o outro(a), através da gratuidade, da solidariedade, que brotam do exemplo do Cristo e da vivência-testemunho do Evangelho.

Portanto, só quem faz a experiência da amizade pode sentir o valor e, com certeza, não conseguirá expressar conceitualmente o que significa.

 

Aprendendo de nossos antepassados

É interessante retrocedermos na História e percebermos os grandes exemplos de amizade que nela existem: São Gregório Nazianzeno e São Basílio, Santo Agostinho e Alípio, Santo Afonso Maria de Ligório e a Venerável Maria Celeste Crostarosa, São Francisco e Santa Clara e muitos outros. Eles viveram intensa e profundamente a nobreza da amizade.

Ao lermos a história de São Gregório Nazianzeno, um dos padres da Igreja, deparamo-nos com esse belíssimo texto escrito ao seu amigo São Basílio:

Nesta ocasião, pois, não apenas eu respeitava o meu grande Basílio, vendo-lhe a nobreza de procedimento e a madureza e prudência de palavras, mas ainda a outros, que não o conheciam tão bem, eu persuadia a fazerem o mesmo. Porque depressa passou a ser acatado pelos que lhe conheciam a fama e reputação... Foi esse o prelúdio de nossa amizade; daí a centelha da afinidade; e, assim, fomos tocados por mútuo amor. Com o passar do tempo, viemos a confessar um ao outro nosso desejo: a filosofia era aquilo que almejávamos. Já então éramos todo um para o outro, morávamos juntos, comendo à mesma mesa, concordes no anseio do mesmo ideal; unidos por amizade cada dia mais estreita e firme... Ambos tínhamos por sua a glória do outro. Parecia uma só alma, em dois corpos. Há quem diga que não se deve confiar em tudo, com que todos concordam; nós, porém, sempre dávamos prova de absoluta concórdia. A única intenção e esforço de ambos era alcançar a virtude e viver a esperança futura, de tal forma que, antes mesmos de sairmos desta vida, dela emigrássemos. Tendo isso diante dos olhos, orientávamos nossa vida, ora seguindo os divinos preceitos, ora estimulando-nos um ao outro à virtude; e, parece pretensão minha dize-lo, éramos um para o outro a norma e o critério para discernir o certo e o errado (Ofício das Leituras: 02 de janeiro)

A experiência que os santos fizeram também é luz em nossa caminhada. A amizade, além de ser relação entre pessoas é ajuda mútua e caminho espiritual.

 

Jesus Cristo, o Exemplo de Amizade.

Durante muito tempo a Cristologia tratou o evento Jesus Cristo como algo muito distante de nós. Ela abordava e exaltava um Cristo muito transcendental, cujas virtudes eram quase impossíveis de serem seguidas. Era um Jesus apático, estóico, sem muita expressão afetiva. Tinha-se medo de explorar o ldo afetivo da pessoa de Jesus, como ser humano que era e buscar e ter sentimentos.

Atualmente a Cristologia tem mostrado um rosto diferente de Jesus. Sentiu na carne as tentações (Mc 1, 13; Mt 4, 1-11; Lc 4, 1-13), encolerizou-se com os escribas e fariseus (Mt 23, 13-36), amou as crianças (Mt 19, 13-15), sentiu tristeza e angústia (Mt 26, 37) e no momento de dor pediu que os seus vigiassem com ele (Mt 26, 38), amava Marta e sua irmã e Lázaro (Jo 11,5). Portanto, Jesus sentiu em sua carne aquilo que é próprio do ser humano, amor, ódio, cólera, desejo, medo, e por ser tão humano tinha seus amigos, aqueles que estavam mais próximos dele e correu o risco por demonstrar tamanho amor aos seres humanos e à humanidade.

A pessoa de Jesus nos ajuda e ilumina na compreensão e busca da amizade. Sandra Schneider na introdução do livro “Amor e Celibato”, afirma:

Jesus tinha amigos íntimos: Maria madalena, Pedro, Marta e Maria de Betânia, os amados Apóstolos e outros. Ele amou e foi amado, tocou e foi tocado. Ele tinha relações e não eram apenas públicas, e ele não evitava a inveja maldosa de observadores ciumentos. Ele experimenta a traição, o companheirismo, e não teve como resolver todos os conflitos de suas relações. Um de seus amigos cometeu suicídio por causa da complexidade insolúvel em suas relações (...) ele não se protegia das relações íntimas com homens e mulheres com suas roupas, títulos, estilo de vida, comportamento ou determinadas opiniões. A vida de Jesus não convida à segurança de uma infância afetiva permanente. Ele nos desafia a amar profundamente e reagir a um desafio desta natureza significa correr riscos, significa sofrer, significa que nos desiludimos conosco e com os outros, mesmo que seja em tragédias reais.

O exemplo de Jesus Cristo como um ser que se relacionou com as diversas situações, limites e fraquezas daqueles que o rodeavam, nos ajudará a percebê-lo de uma outra forma e também como nos relacionamos no nosso cotidiano e damos ou recebemos esse suporte espiritual.

 

Concluindo

O objetivo deste texto foi incitar à essa dimensão humana, importante na vida espiritual. A nossa espiritualidade não é alguma coisa egoística, mas é caminho que se faz com o outro. Ter com quem dividir o peso do fardo cotidiano, torna a vida mais alegre, salutar e o apostolado, a vida comunitária se tornam fecundo, pois é partilhado.

Na ágape preparado com o sabor da amizade, devemos partilhar o pão da Palavra, do Perdão e da Caridade. Se conseguimos semear em nossas comunidades e no meio do povo essa pequena semente, estamos fazendo a experiência da redenção. A redenção só foi possível porque o amor foi incomensurável. Só seremos e teremos bons amigos, à medida que nos aproximamos das pessoas, perdendo o medo do humano e fazendo a experiência do “olhar da transcendência” (Levinas), participando da grandeza que é o Outro, ajudando-o a carregar a cruz e juntos celebrar o louvor pelo Outro existir em nossa vida. Isto é profundamente humano e espiritual.

Não há amizade verdadeira sem o conhecimento da história pessoal da outra pessoa. Cada vez que conhecemos mais uns aos outros temos a possibilidade de amá-los.

Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R