BREVE RESUMO DA EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELII GAUDIUM

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27/11/2013 19:01

Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R

 

O Papa Francisco publicou a sua primeira exortação apostólica, a Evangelii Gaudium, sobre o anúncio do evangelho no mundo atual. Um texto que, além da sua simplicidade, beleza e densidade, reassume em um ‘corpus’ seus discursos, no que diz respeito à reforma da Igreja e insere outras questões pertinentes no contexto contemporâneo. Ele se refere amplamente à alegria e, sobretudo, a alegria que vem do encontro com o Senhor. Resgata a dimensão da participação, algo que o Vaticano II já havia assinalado e não crê em uma Igreja de decretos. Neste texto, ele oferece conteúdo programático à Igreja que deve sair de si mesmo e encontrar as pessoas nas ‘periferias existenciais e do mundo’ com seus desafios: alegrias e tristezas. Ao meu ver, trata-se de um texto que não deve ser lido, mas meditado, e é um convite à Igreja para sair de suas próprias estruturas arcaicas, seguras, estéreis que sufocam o evangelho. Convida a todos a perderem o medo de evangelizar e superar uma lógica de um perfeccionismo inútil que impera nas instituições eclesiais e nos cristãos e enfraquece a ação evangelizadora, porque tem medo de ir ao encontro do essencial do evangelho.

Francisco afirma que ‘não é tarefa do Papa oferecer uma análise detalhada e completa acerca da realidade contemporânea” e continua: “mas exorto todas as comunidades a terem uma sempre ‘vigilante capacidade de estudar os sinais dos tempos’” (EG 51).

Descrevendo a realidade contemporânea o Papa escreve que os cristãos devem dizer não a uma economia que mata, que descarta as pessoas pela ‘globalização de indiferença’ do anestesiamento das consciências, do ‘feticismo do dinheiro’, do consumo, da rejeição da ética e de Deus. A economia deve estar a serviço do ser humano. Apresenta os desafios de uma cultura relativista e midiática, da inversão de valores, a secularização, a transformações no âmbito familiar, os problemas da inculturação da fé e sua transmissão, as transformações no mundo urbano e suas problemáticas, bem como no âmbito rural.

Trata-se de um mundo que exclui as pessoas, mas que oferece a possibilidade de conviver com a pluralidade, onde cada ser humano possa ser respeitado nos seus espaços, não em um individualismo estéril, mas na sua individualidade e é capaz de ir ao encontro dos outros. A evangelização acontece por meio de encontro com outros e a sua razão em Jesus Cristo. Chama a atenção para as tentações que afetam os evangelizadores de se fecharem às próprias convicções, projetos e velhas estruturas. Recorda o direito dos fieis de serem bem atendido pelos seus pastores e uma Igreja aberta tanto institucional, física e humanamente à moção do Espírito que sopra onde quer e que testemunha o Evangelho em meio aos povos e culturas e seus desafios.

É muito belo quando Francisco fala da importância de uma homilia, breve, bem preparada, que evidencie o mistério pascal de Cristo. Ele usa a metáfora de uma ‘mãe que conversa com o seu filho’ com ‘palavras que fazem arder o coração’ e que devem ser preparadas com meditação, oração e estudo, coerência e testemunho e que toque a realidade do povo de Deus, com linguagem simples e profunda.

Ele insiste em um processo de evangelização que resgate a dimensão do kerygmática e mistagógica e que acompanhe pacientemente com novas linguagens e símbolos, fundamentada sobre a Palavra de Deus e que toque as questões sociais, promovendo integralmente o ser humano. O evangelho deve provocar os cristãos a agirem no mundo, incluírem os pobres, os fragilizados e os indefesos das violações contra a vida humana e pede para que se lute pela paz social e se construa um diálogo interdisciplinar entre fé, razão e ciência e ecumênico. Por fim, evangelizar com o Espírito que se abra sem ‘medo à ação do Espírito’ (EG 259) per um renovado impulso missionário e sob a proteção de Maria, a mãe da evangelização.

Para quem ouve as homilias de Francisco, não terá problemas ao ler o texto. É direto, não tem interpolações, visa tocar o coração do homem e mulher de hoje, mesmo se o texto seja longo, 288 parágrafos. Resgata as grandes linhas do Concílio Vaticano II e os desafios contemporâneos e convida a Igreja ser samaritana a olhar os caídos pelas estradas do nosso cotidiano na sociedade. Muitas dessas questões deverão ser retomadas no Sínodo no ano que vem sobre a família! Quanto às fontes do documento, não é um documento autorreferencial. Não se autocita na exortação. Resgata as Conferências Episcopais dos diversos continentes, resgatando o aspecto da participação e da subsidiariedade e de uma Igreja semper reformanda. Que possa vir ares novos para dentro da Igreja que permitam a reflexão teológica crítica e a abertura ao diálogo com o mundo para que juntos possam chegar ao bem desejado por Deus, a felicidade humana!


 

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