Experimentar Deus na contemplação da natureza

01/04/2011 18:55

   Cada pessoa tem o seu modo de se encontrar com Deus. Algumas necessitam de silêncio, outras de uma ambientação, uma capela e outras a natureza. Em um sentido mais amplo, chamaremos a natureza de Criação. Ela constitui um elemento importante para refletir sobre a presença de Deus e a sua ação no mundo.

 

A busca das origens

Buscar as origens é a constante indagação humana. Desde os primórdios o ser humano se interroga sobre este ponto e busca encontrar algumas explicações sobre ele. Desde as teorias criacionistas às evolucionistas se verifica esse desejo de responder a um mistério que se coloca diante de nós: quem criou tudo isto? A pergunta é extasiante, as respostas tímidas e não se pode negar que exista uma inteligência superior que tudo criou. A mentalidade judaico-cristã chama-a Deus.

Para além das interrogações da Ciência e da Teologia, o ser humano tem diante de si uma morada na qual pode habitar e que possui os recursos necessários para a vida e cabe a cada pessoa a responsabilidade de cuidar desta casa, pois ao fazê-lo, cuida-se de si mesma.

 

Um Deus criador

Se tomarmos Gn 1 – 2 o texto bíblico relatará que a origem da criação é Deus. Ele cria todo o universo e o homem e a mulher. Da parte de Deus a criação é uma liturgia que vai sucedendo. A metáfora é bela, porque atribui características humanas a Deus, tornando-o próximo, sem lhe tirar a onipotência do amor criador. Deus cria o Universo porque é amor e somente o amor é capaz de gerar nas entranhas e fazer que do nada exista... Aqui não interessa muito perguntar se Deus cria do nada, conforme afirmara Santo Agostinho ou reorganiza o caos. O importante é que existe a beleza diante de nós, a ser contemplada.

 

O ser humano como criador

Essa beleza criada por Deus tem possibilidade de se tornar cada vez mais bela quando o ser humano, criado imagem e semelhança de Deus, torna um parceiro do Criador. O homem além de herdar de Deus a imagem e semelhança herda também a capacidade criadora. O salmo 8 recorda essa profunda capacidade humana da transformação. “Que é um mortal, para dele te lembrares e um filho de Adão, que venhas visitá-lo? E o fizeste pouco menos do que um deus, coroando-o de glória e beleza. Para que domine as obras de tuas mãos sob seus pés tudo colocaste” (Sl 8,5-7).

Os antigos já anteviam essa capacidade criadora e criativa do ser humano. Conhecem que dentro de cada ser humano há esta capacidade para continuar a criação de Deus. Se pensarmos bem, Deus continua criando o universo todos os dias em cada homem e mulher que continua a criação como projeto de amor e de bem. “E Deus viu que era bom!”

 

A Criação como reflexão espiritual

Esta criação continuada por homens e mulheres de boa vontade pode ser um ponto de reflexão na vida espiritual em dois sentidos: O primeiro enquanto contemplação do criado e o segundo na dimensão da preservação.

Dentro deste quadro de contemplação do Universo temos um grande mistagogo (aquele que introduz no mistério) Francisco de Assis. A sua dimensão contemplativa chegou a tal ponto em que considerava tudo como “irmão/irmã”. Irmão/irmã é aquele/a que possui parte de mim... Francisco considerava a natureza como parte de si, do mistério. Além disso, ele via em todo o Universo a Beleza e a Ternura de Deus que tudo foi modelando. Esta percepção do Santo nos faz pensar no Universo com grande templo em que podemos celebrar a grande liturgia cósmica. É um grande livro em que podemos perceber a manifestação de Deus. E foi dentro desse Universo que o próprio Deus escolheu para encarnar-se, viver como pessoa, morrer e ressuscitar. Portanto, o Universo com seus anos incontáveis é testemunha do evento salvífico da humanidade. Assim, todo o criado é uma mediação que podemos sentir a delicadeza das mãos de Deus e a sua revelação a cada dia na história.

O Universo, a natureza não são divindades. Falam para nós de Deus que cria, recria e salva a humanidade a cada dia.

Essa dimensão contemplativa nos evoca a uma tomada de consciência, preservar, cuidar daquilo que Deus criou e continuar a sua criação. Isto não significa que o ser humano deva deixar tudo intocável, é necessário transformar e para isso é necessário modificar ambientes, realidades. A responsabilidade está em transformar e de forma responsável, agir para que a natureza não seja ferida mortalmente ou que seja explorada até as últimas forças e criar um ciclo de mortes.

 

O cântico das criaturas

Ao contemplar a obra da criação, perceber os rastros de Deus nela e como realidade inspiradora à oração, cabe-nos refletir sobre a contribuição cristã, a partir da espiritualidade, no campo ecológico.

Nas Escrituras o salmista contempla as obras do Senhor (Sl 8, 148, 150). O cântico de Daniel coloca na boca dos jovens Ananias, Azarias e Misael um belíssimo cântico em que evocam a beleza de toda a criação e o louvor ao Senhor, ao serem salvos pelo Anjo de Deus (Dn 3, 46-90). São Francisco também cantou seu cântico das criaturas. Resta-nos perguntar qual será o nosso cântico...

O cântico do cristão em relação à preservação da natureza, não deve ser melancólico, mas cheio de vida. No entanto, este cântico não deve levar em consideração somente a natureza e a sua preservação, mas algo maior, o próprio ser humano.

Por meio da espiritualidade cristã se resgata o ser humano, cuida-se dele, educa-o para os valores, para a vida e para a preservação do meio em que vive por meio das pequenas iniciativas até ao engajamento nas causas sociais. Somente o ser humano é que pode zelar pela natureza e se ele for esquecido pelo próprio semelhante, já nos encontramos diante de um problema de degradação contra a vida. É a partir da vida humana que se pode preservar a vida da natureza. E é da preservação de vida humana e da natureza que poderemos ter vida em abundância (Jo 10,10) e realmente contemplar profundamente a Criação de Deus.