Experimentar o deserto na vida espiritual

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26/06/2011 18:33

 

Na caminhada espiritual de todo ser humano aparecem momentos em que tudo parece um abismo e as respostas se esvaem. Há uma aridez, uma secura espiritual e tudo parece estar perdido. Surgem o desânimo, a vontade de ficar parado, de não mais caminhar. Caminha-se pelo deserto interior.

Por essa experiência passaram os grandes santos e místicos da Igreja e todo aquele que ousa construir seu itinerário atravessará por esse feliz momento!

A experiência do deserto é fecunda, embora seja dolorosa, somos confrontados conosco mesmo, com nossas “feras” interiores, quando nos confrontamos com aquelas situações que nos afastam, dividem-nos.

O deserto é o momento de libertação das amarras que criamos para nós mesmos. Essas situações interiores que nos prendem, faz-se necessário deixá-las, se queremos caminhar. Portanto, o deserto é lugar do confronto e do amadurecimento. Assim, vale a pena buscarmos a experiência das Sagradas Escrituras para a nossa compreensão, aprofundamento e elaboração de um itinerário espiritual.

 

A experiência do Povo de Deus

 

Parece não haver na história um povo tão experiente em deserto quanto o Povo de Israel, a começar pela estrutura geográfica e as experiências de itinerâncias. O deserto, nas Sagradas Escrituras, pode ser tomado como referência geográfica, no seu sentido real ou no sentido conotativo, fruto de uma experiência de um povo peregrino, como lugar teológico.

Nosso objetivo é resgatá-lo em ambos os sentidos e depois situá-los no processo do itinerário espiritual. Fazer a experiência do deserto implica deixar o medo para trás...

O deserto pode ser entendido como o local de conflito, da derrota, da peregrinação, de se compreender a si mesmo como ser errante, peregrino na história.

Alguns capítulos dos livros do Êxodo e dos Números narram a experiência de caminhada do povo de Deus pelo deserto. Nesse itinerário, o povo de Deus, passa por situações diversas que o vai levando a compreender os desejos e as promessas de Deus.

O deserto é ponto de encontro, é onde se celebra a Páscoa, oferecendo ao Deus libertador sacrifícios, e é onde se faz a experiência da Proteção divina, coloca-se em marcha e se  faz a experiência do limite.

Ao longo desse caminho, o povo toma consciência dos seus pecados, das suas fraquezas, fica desanimado e perde a esperança. Passa pela experiência da morte e da perda de identidade. O deserto torna-se o lugar da sede, da amargura, da fome, da provação (Ex 15, 22), do descontentamento, da falta de estrutura, do desânimo, do desejo de retornar ao que era antes, à segurança da terra do Egito (Nm 11,5.14, 2). Experimentam a indigência, a provação e a necessidade de caminhar errante devido às infidelidades.

O povo sentiu fome e sede, entretanto Deus os alimentou com o maná (Ex 16) e saciou a sede, fazendo brotar água do rochedo (Ex 17,1-7). A experiência do deserto foi pedagógica, pois fez com que seguisse a Deus com fidelidade (Jr 2,2).

Entretanto, na caminhada, houve contestações, revoltas, desgostos, pois o povo foi tirado do comodismo, chamado à nova experiência. O deserto é o preço da libertação para se ver livre do Egito. É o lugar da tomada de consciência: quem quer se tornar livre passa pela insegurança e a sequidão para se tornar livre das amarras de si mesmo.

O deserto é a experiência da limitação e do dom amoroso de Deus ao seu povo (Nm 21,18). É um lugar que, apesar da sequidão, há ainda uma fonte que jorra água (Gn 16,7). É onde se pode ver a glória de Deus amoroso sem obstáculos.

O Levítico recorda que é no deserto que se apresenta a oferenda a Deus e se faz o ritual de expiação. Depois do ritual, tomava-se o bode expiatório e lançava-no ao deserto. Para os isarelitas, o deserto era o local da habitação do demônio.

Em Números, encontramos a narrativa do povo caminhante. Neste livro, dentre os muitas referências ao deserto, nós o temos como o local onde Deus fala com Moisés, no Deserto do Sinai. É no Sinai que o povo faz a profunda Aliança.

 A geração infiel a Deus morre durante a caminhada do deserto (Nm 32,13), ficando uma nova geração, purificada, marcando profundamente a relação do Povo com Deus.

O deserto é um lugar terrível, mas por ele se caminha até à montanha. É o lugar de obstáculos, da fragilidade da vida, e também da ação beneficente e providencial de Deus, salvando o seu povo sempre dos perigos. Em Dt 1,29-33, há um relato muito interessante mostrando Deus como um pai que conduz o filho no caminho. Assim, Deus é aquele que vai à frente do povo no deserto, mostrando por onde deve andar e este povo prova o amor e a fidelidade de Deus No deserto o povo experimenta a presença de Deus na históriae que o salva.

O deserto é onde se faz o redirecionamento de uma rota, isto é, por ele, mudam-se as atitudes. É o lugar em que Deus conquista o povo. Em Dt 8,1-6, Deus aparece como tentador, isto é, faz uma experiência com o seu povo, a fim de conhecê-lo e saber o que ele tinha no coração.

É no deserto que Davi escapa das mãos de Saul (1Sm 23,14). Portanto, é também local de conflito e de fuga (Js 8,20). É onde há perseguição, insegurança e se faz a experiência do medo. Os Macabeus para resistirem à invasão helênica se retiraram para o deserto (2Mc 5, 27) como meio de se protegerem.

Em Isaías, a imagem do deserto muitas vezes aparece desoladora. Devido ao exílio, o profeta compara Jerusalém a um deserto. Por vezes, traz o sentido da esperança profética isaiânica: “porque no deserto jorrará água e torrentes na estepe” (Is 35,6); “transformarei o deserto em açudes (...) plantarei no deserto o cedro e a acácia... (Is 41,18-19)”. Nesse sentido, o deserto representa a renovação das esperanças perdidas.

Além de todas as imagens que temos sobre o deserto, ele nos é apresentado como lugar da manifestação de Deus. É o Deus-Caminhante que marcha com o seu povo. É ao mesmo tempo lugar da manifestação da graça, e também da ruína, da ausência de vida, da solidão desoladora, da fome.

Em Oséias há uma referência muito interessante. O deserto é o lugar da sedução, onde se permite falar ao coração (Os 2, 16) e é onde Deus conhece o seu povo (Os 13,5).

Assim, o deserto na Sagrada Escritura é sinônimo de provação, bem como de renovação espiritual: “por isso, eu mesmo a seduzirei e a conduzirei ao deserto e lhe falarei ao coração.” (Os 2,16s)

 

A experiência de João Batista e de Jesus Cristo no deserto

 

Não podemos nos esquecer que é no deserto que João Batista e Jesus iniciam a sua missão. João prega o batismo de conversão (Mt 1,1-3; Mc 1,4; Lc 1,80). Após o batismo, Jesus retira-se durante quarenta dias para o deserto a fim de ser tentado pelo diabo (Mt 4,1; Mc 1,12; Lc 4,1-2), preparando-se para a pregação do Reino. Assim, o deserto é símbolo de discernimento e de preparação para uma nova missão. É referência da pregação (Mt 3,1), onde se recupera as forças (Mt 14,13; Mt 6,31-32) e lugar para onde se retira para rezar (Mc 1,35).

 

O Deserto na Vida Espiritual

 

Vista a experiência bíblica, o deserto revela a inquietude de nosso ser. Através dele fazemos a experiência da nadificação e da absolutização. Nadificamos as realidades menos importantes, periféricas e absolutizamos nosso ser em Deus.

O deserto rompe com a nossa temporalidade e com a nossa noção de espaço e tempo. Quem perambula por tal lugar sabe o que isso significa, pois a sua companhia é a incerteza. Desmontamos nossas certezas pessoais e nos aferramos ao que temos de mais essencial, quando experienciamos tal situação.

Em nível espiritual, atravessamos nossos desertos. É um processode purificação, fazemos a experiência da crise para nos purificar. Essa purificação é entendida como discernimento à vida espiritual.

A teologia mística traz dois conceitos que nos ajudam a perceber em que nível estamos em nosso itinerário espiritual. Temos a consolação e a desolação. A Consolação é quando nos sentimos abarcados pela presença de Deus. É um momento de muito gozo, porque estamos com aquele que amamos profundamente e que nunca nos abandona. Por desolação, compreendemos aqueles períodos que passamos em nossa vida de profunda aridez, parece que a vida perdeu o sentido e não temos vontade de dialogar com Deus. Surgem a angústia, o desânimo e a crise.

O deserto consiste em mergulhar na própria solidão e descobrir que não se está só, mas só com Deus. A conseqüência disso é que atingimos nosso cerne, a parte de nosso eu que sempre procuramos. A solidão provocada pelo deserto é a possibilidade única que temos de acreditar em nós mesmos. É quando olhamos para a imensidão do horizonte e, através dos olhos da fé, desmistificamos as falsas imagens do deserto, as ilusões, os falsos ídolos e conseguimos enxergar o oásis que somos nós em Deus que caminha conosco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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