MENSAGEM DE NATAL

21/12/2012 13:51

 

Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R

Estamos chegando a mais um final de ano, marcado por ciclos alternados de alegria e de dor, de ganhos e de perdas. Para alguns, o ano para ser recordado para sempre, para outros não tê-lo vivenciado... É assim o modo humano de viver sobre esta terra. Há coisas que nos acontecem e estão na lógica da responsabilidade humana; outras, escampam do nosso horizonte de controle. Seja como for, se cada homem e mulher da terra agir responsavelmente e procurar o bem, não se eliminará totalmente a dor do mundo, mas sim a mais terrível delas, a da desumanidade. A dor da desumanidade nenhum ser humano a esquece, pode até perdoar; a dor de nossas perdas naturais o tempo cura, mas permanece a saudade...

Cabe a nós, e somente nós, humanos mortais, condicionados por Kronos, melhorar o ambiente que vivemos e repensarmos o nosso conceito de humanidade, no seu sentido mais profundo. E, certamente, o mais profundo deles e vivenciar intensamente a própria carne. O termo hebraico basar e em grego soma designa a totalidade humana que se coloca em comunhão com os demais. Assim, ao contrário, desumanizar-se significa perder a própria carne e fechar-se no egoísmo que provoca a morte total do ser humano e se impõe como forma de poder capaz que desrespeita a humanidade do outro.

Nesses termos, o Natal relembra a festa da profunda humanidade a ponto de Deus se encarnar, assumir a totalidade humana, dentro dos condicionamentos históricos e cronológicos. Capta profundamente este mistério quem é profundamente humano e capaz de amar. Não se trata de um horizonte transcendental, sim de capacidade dada, gratuitamente por Deus, a cada um de nós de trabalharmos a nossa interioridade e domarmos nossas feras interiores e lidarmos com elas. A transcendência se abre à medida que vamos tomando consciência da nossa própria carne e acreditamos que o próprio Deus a assumiu um dia e nos deixou o caminho a ser traçado. Talvez ainda estamos na encruzilhada e não descobrimos o caminho, porque não fomos capazes de enxergar a Luz: “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam um terra sombria como a da morte” (Is 9,1). Não descobrir essa luz é permanecer na morte, sem perspectiva de vida, isto é, de permanecer desencarnado.

O Natal é simbolizado pelo menino-Deus. O nascer de uma criança, desde a sua concepção é envolvido por uma série de acontecimentos silenciosos e a materialidade de uma espera; o nascimento, o presente, a materialização de um mistério que se abre, cheio de expectativas, desejos, sonhos, horizontes a serem traçados e de espera...Isso não foi diferente na família de Jesus!

Que o choro do Menino de Belém possa incomodar aqueles que se esqueceram da própria carne e vilipendiam a carne do próximo; que possa acordar a humanidade do ‘sono da desumanidade’ (Jon Sobrino); que possa ser um sinal para cessarem as guerras; uma possibilidade de acudir os que sofrem e são vítimas da desumanidade; que seja um tempo da humanidade cantar uma canção de ninar para si mesma e alimentar-se do amor que cria e recria a humanidade; que seja a possibilidade dada a cada um de nós de conversão diária a humanização de nós mesmos e do outro!

FELIZ NATAL e EXCELENTE ANO NOVO!!