Nossa forma íntima de se comunicar com Deus: a oração

28/03/2011 22:36

 A definição mais usual de oração é a de diálogo com Deus. Realmente o é, no entanto, deve-se levar em consideração a qualidade desse diálogo. Deve sê-lo de maneira que atinja as nossas vísceras e provoque comunhão entre o nosso ser e Deus.

 

Intimidade com Alguém invisível

Ao partir da definição de oração como diálogo com Deus, podemos nos perguntar: como dialogar com alguém que não vemos diante de nós de algum modo? Temos necessidade de presença, de voz, de símbolos, de imagens, de algo para nos apoiar e nos certificar que estamos dialogando com alguém, e com Deus não podemos vê-lo, escutar sua voz...Queremos certezas, mas ao lidar com o divino, elas se esvaem, restando-nos uma espécie de dúvida ou de crise diante do mistério.

Talvez seja pelo nosso desejo excessivo de certezas absolutas que não podemos captar o modo de Deus falar ao nosso coração. Somos ansiosos por respostas imediatas, realidade própria do humano e nem sempre essa resposta acontece como queremos. A experiência do mistério divino responde-nos de forma diferente.

Obteremos respostas do diálogo com Deus e ele nos fala e de modo sutil. Captar o que Deus nos fala insere-nos numa outra experiência, a da intimidade. Intimidade significa adentrar no mistério de si e do outro, e isso só é possível pelo amor. Experiências humanas como a do namoro, dos casais e de amizades expressam esta realidade. Intimidade e amor levam à comunhão e na comunhão cessa a palavra.

É nesse processo que surge a oração. A oração é a ousadia humana de entrar no coração de Deus, e na nossa pequenez, deixar que Ele acampe em nosso coração. Neste momento, não existe mais a barreira da palavra, a solidão e o silêncio se tornam presença e certeza mistérica de um encontro de amor. Portanto, é a intimidade que nos faz captar e compreender o que Deus nos fala, não como voz, mas como presença. É na intimidade que codificamos esta presença de Deus e podemos afirmar: Deus falou comigo!

 

Oração e fidelidade

Se podemos captar a sutileza de Deus por meio da intimidade, do amor e da comunhão devemos conservar esta dádiva por meio da nossa fidelidade a Ele, por meio da nossa dedicação amorosa, respeito e compromisso diário com a nossa oração. Ser fiel a Deus é amá-lo como todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com todas as nossas forças (Dt 6,4), recordando que o seu amor é forte para conosco e a sua fidelidade dura para sempre (Sl 117/116,2), mesmo quando somos infiéis. Assim mesmo, Ele nos conduzirá ao deserto e nos falará ao coração (Os 2,16).

O nosso desejo e a fidelidade de Deus conosco nos tira o medo e nos faz arder o coração. Metaforicamente seremos como a mariposa hipnotizada pela luz. Sempre nos faltará algo... teremos sempre uma saudade de Deus até o dia que nós o veremos face a face.

O nosso gesto fiel se dá pela nossa oração cotidiana, a partir da meditação da Escritura, da oração pessoal e da celebração comunitária, sobretudo da Eucaristia. Essa nossa fidelidade se expressa em dedicar um tempo às coisas de Deus. “Quando fores rezar, entra em teu quarto, fecha a porta e reza a teu Pai em segredo, e teu Pai, que conhece todo segredo, te dará a recompensa” (Mt 6,6). Portanto, oração é deixar que Deus penetre nossos mistérios, nossos segredos, nossa intimidade. Esta será nossa recompensa, porque ao deixá-lo visitar nossa intimidade podemos conhecê-lo.

A visita de Deus em nossa tenda nos provoca de modo que saímos a contar o que experimentamos aos outros e a não nos conformarmos de reter tal evento somente para nós. Não compartilhar a vida oracional e seus frutos é intimismo e é a morte da oração. Mateus 18, 19ss recorda-nos esta dimensão comunitária da oração: “Também vos digo: se dois dentro vós, na terra, pedirem juntos qualquer coisa que seja, esta lhe será concedia por meu Pai que está nos céus. Porque, onde dois ou três estão reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles”.

 

Não esmorecer

Aliada a nossa intimidade e fidelidade está a perseverança. Sem ela acabamos por nos perder nas encruzilhadas do desânimo, da nossa displicência pessoal, das nossas desculpas ou das nossas noites escuras.

A perseverança nos impulsiona e nos dá dinamicidade à vida oracional, fazendo-nos trilhar nosso itinerário espiritual não como obrigação imposta, mas pela dádiva que é este espaço comunicativo com Deus. E por sê-la toca nas nossas profundezas impulsionando-nos a este encontro com o divino.

Em At 2, 42ss recorda-nos: “eles perseveravam na doutrina dos apóstolos, na vida em comunidade, na fração do pão e nas orações”. O texto que remete às primeiras comunidades cristãs nos chama também para que façamos o mesmo cotidianamente por meio da Escritura, do partir o pão eucarístico e o da nossa vida e da oração pessoal comunitária.

Perseverar na oração não deve ser um fardo para o cristão e sim algo que sempre o ajude a aprofundar sua vida íntima com Deus e com a comunidade de fé, com a força do Espírito.

 

A luz do Espírito

A Igreja sempre invoca o Espírito para iluminar os acontecimentos na vida litúrgica, eclesial, teológica, etc. Esta presença é sinal de renovação, de criatividade, de lançar-se na aventura dos caminhos de Deus e do impulso à comunidade orante.

Se a comunidade reunida experimenta a força fecunda que gera vida nova no seu coração, isto nos serve de inspiração para não nos esquecermos deste nosso companheiro que nos guiará nos caminhos da oração.

A presença do Espírito é fundamental na nossa vida orante. Invocá-lo ajuda-nos para que consigamos entrar nesta comunicação íntima com Aquele que nos quer sempre perto Dele. Ao mesmo tempo, fortalece a nossa fidelidade e sustenta nossa perseverança.

Este Espírito Santo suscitará em nós um “pentecostes”, fazendo-nos descobrir novas linguagens para os nossos métodos de oração e impelindo-nos a sair dos muros intimistas que nos fazem criar um “deus” a nossa imagem e semelhança e a não experimentarmos o Deus que nos criou à sua imagem semelhança para sermos criaturas anunciadoras do seu amor, da sua presença e da sua fidelidade.