Retiro: experiência de Deus na vida

09/04/2011 08:20

  A Igreja, na sua longa e sábia experiência, sempre recomendou aos seus fiéis e aos seus pastores momentos de parada para reavaliarem a caminhada pessoal e comunitária. Analisam-se as perdas e os ganhos, os caminhos retos, as encruzilhadas, as decisões com suas conseqüências positivas e negativas. Decisões são importantes na vida e precisam ser bem pensadas, escolhidas. Nem sempre são as melhores, porém àquela hora talvez fosse a que estivesse dentro das condições, no entanto, faltasse o discernimento necessário.

A prudência recomenda que o discernimento é um processo lento, requer muita escuta, muita oração e muito silêncio. Requer atenção ao coração e à voz do Espírito Santo e, muitas vezes retirar-se, ficar sozinho, ouvir a voz de Deus e a do coração humana.

 

Retirar: buscar o novo dentro de si

 

Retirar tem vários sentidos. Tirar de onde estava, retrair, recolher, afastar, ir-se, partir, ausentar-se, fugir, debandar, isolar-se. Por correlação “retiro” é lugar solitário, de solidão, lugar de afastamento, retirada. E não somente isto! Significa Re-tirar. Permitam-me brincar com as palavras!

Tirar quer dizer: extrair, sacar, puxar, fazer sair, despir, descalçar, arrancar, auferir, afastar-se. Portanto, retirar-se é um tirar de novo, tirar novamente, tirar outra vez, re-tirar. Depreende daí, muitos termos para meditar na experiência de retiro.

Para ajudá-lo (a), caberia uma pergunta: de que você quer retirar-se? Por que quer retirar-se e o que quer retirar do retiro? O que você precisa re-tirar de sua vida? Da sua vocação, da sua experiência de cristão?

O retiro é tirar coisas de nossa vida pessoal, como sujeito histórico e espiritual, trazê-las à superfície para discernir, para peneirar, submeter à purificação, ao cadinho. É adentrar profundamente no interior que precisará renovar o homem velho; fazer sair novos conceitos, novas experiências, arrancar o joio do trigo, despir-se dos medos e das máscaras pessoais, descalçar-se das botas do orgulho, do poder, da arrogância; afastar-se de si e puxar o cerne do homem novo que há dentro de cada um e colher as experiências de consolação e também as de desolação, se houverem.

É uma pausa para se recompor em todos os sentidos – física e espiritualmente. O corpo, a mente e o espírito precisam de um tempo, o Tempo da Graça. Aliás, a cultura judaica tinha a tradição do ano da graça (Is 61,2), um período de perdão das dívidas, do descanso da terra, da libertação dos escravos. Também devemos proclamar para nós o Tempo da Graça, na experiência do retiro para recompormos a integralidade de nosso ser.

É o tempo de fazer uma profunda experiência de Deus. É permitir Deus ser Ele mesmo e deixá-Lo agir como e quando quiser. Ele está além de nossa curta e pobre compreensão filosófico-teológico-espiritual. É importante que deixemos que Ele nos seduza, leve-nos para o deserto, conquiste o nosso coração (Os 2,16) e nos traga a vida tirando-nos dos vales dos ossos ressequidos (Ez 37, 1-14).

 

Jesus fez experiência de retirar-se

 

Os Evangelhos nos mostram que Jesus sempre dedicou um tempo para si. Antes de uma missão retirava-se para rezar ao Pai. Após estar com a multidão retirava-se para descansar e orar. Os textos nos revelam que numa dessas experiências ele confrontou-se e fez a experiência do deserto. Estes textos encontram-se apenas em Mateus e Marcos que os inserem bem na preparação do ministério de Jesus (Mt 4,1-11;Mc 1,12-13). Após ser batizado, Jesus retirou-se, foi para o deserto, lá entrou em contato com suas experiências humanas obscuras e foi provado em todos os seus desejos e em todas as suas forças.

O diabo, no texto, representa todas as forças, as divisões interiores da humanidade de Jesus que queriam ajoelhá-lo, curvá-lo às idolatrias deste mundo e desviá-lo da sua própria humanidade e do projeto de justiça do Pai e do Reino. Ele experimentou as bestas interiores e não se deixou escravizar por elas, não as idolatrou. O seu projeto de justiça, de amor e de compaixão e a sua intimidade com o Pai permitiram-no enfrentar a periculosidade do deserto com suas tentações, carências, fomes, desejos descontrolados, morte e a experimentar Deus, fazer aliança com Ele, redefinir os projetos.

 

Confrontar-se para experimentar Deus

 

O retiro é um tempo propício para uma profunda experiência de si mesmo e de Deus. É o momento que cada um deixa a dura monotonia de kronos (tempo cronológico, o tempo do relógio) e abre-se ao kairós (tempo da graça), tempo vital, oportuno, dado a cada um para experimentar o humano e o divino de si e o divino e o humano do próprio Deus. É o momento de abertura a graça de Deus, de deixar-se modelar pelas mãos do Grande Oleiro que cria e recria a cada um de nós a cada instante. E somente quem se prontificar e lançar sem hesitação nesta aventura pode fazê-la. E isto se faz pela oração, silêncio e meditação.

É fazer a experiência de se colocar a caminho no grande peregrinar de si que implica deixar coisas velhas e pensar um novo itinerário para sua vida e ir ao encontro da grande luz, Deus. Nesse processo experimentar-se-á alegria, tristeza, consolação, desolação, deserto, solidão, questionamentos, mas somente quem se abrir ao Espírito, Deus conosco, colocar-se-á a ser modelado pelas pontas dos dedos do oleiro.

Trata-se de peregrinar, lançar-se nas águas mais profundas (Lc 5,4) de si mesmo, de confrontar-se e de experimentar Deus e o humano de si mesmo e daqueles que convivemos na nossa caminhada. É cuidar de si para depois poder cuidar dos outros

Retirar-se é quebrar a rotina do cotidiano e deixar-se passar pela crise para experimentar a profunda comunhão com Deus, de todo o coração, com toda a potencialidade, mesmo com os condicionamentos existentes. É lançar-se no seio profundo do próprio Deus. É dar tempo a si para que o Espírito Santo de Deus possa agir na intimidade e transformar a interioridade. É fazer de si uma grande habitação de Deus.

É escutar-se si e mergulhar dentro de si. São Cipriano de Cartago lembra: “como podes pretender que Deus te escute, se tu não escutas a ti mesmo? Tu queres que Deus pense em ti, quando tu mesmo não pensas em ti”. É deixar-se ser, desnudar frente a Deus; deixar de lado qualquer maneira de teologizar Deus, mas senti-lo, calar-se frente a este mistério. Por isso requer silêncio! Não teorizar Deus, mas experimentá-lo, saboreá-lo em nossa vida. Talvez em outro momento, tentar conceituá-lo!

O retiro é tempo de recordar, passar novamente a existência pelo coração, de reconsiderar a história pessoal, vocacional e relacional. Deixe Deus tomá-lo (a) pela mão e conduzi-lo (a). É deixar-se seduzir pelo Senhor, isto é, tentar, seduzir, persuadir, atrair.

Assim, o retiro é o tempo do Espírito conduzir-nos ao deserto para enfrentarmos as nossas feras interiores, prendê-las ou extirpá-las e voltar ao centro de nosso projeto – uma vida em consonância com o projeto do Pai como fez Jesus.

Tire um dia para você, pegue a sua Bíblia e vá para um lugar deserto para rezar, depois me conte a sua experiência...