Santidade: encontro de amor entre humano e divino

28/10/2011 18:58

Após termos trabalhado alguns temas relacionados à espiritualidade  quero propor aos nossos queridos leitores e leitoras um tema muito caro na vida espiritual que é a santidade.

 

Santidade: Entendê-la para buscá-la

A primeira coisa que precisamos compreender para percorrer este caminho é definir o que é santidade. Não pretendo explicar a santidade como algo canônico, o processo elaborado para que alguém seja elevado aos altares, mas a partir do cotidiano e da vivência.

Certamente você já ouviu a seguinte expressão: “Fulana é uma santa...” “Pedro é um santo...” “Maria é uma santinha...” Algumas vezes o termo santo/a é indicado com ironia, para dizer exatamente ao contrário daquilo que a pessoa é ou para expressar que ela vive no mundo das nuvens, fora da realidade. Ou expressa, de fato, uma santidade de vida com mística profunda que as pessoas conseguem captar e a definição que conseguem dar é nomear santo/a.Este segundo termo interessa-nos para aprofundamento.

Se consultarmos o dicionário sobre o que é santidade ele nos dará a seguinte definição: “qualidade ou virtude de santo; estado de santificação; virtude, pureza, religiosidade.” (Cf. HOUAISS). E quem é o santo? O mesmo dicionário traz várias definições, mas há quatro que nos interessam: “essencialmente puro, soberanamente perfeito; que ou aquele que foi canonizado e/ou a quem os fiéis rendem culto; que ou aquele que vive conforme a Lei de Deus e a moral religiosa; que ou aquele que é dotado de santidade, que é puro, isento de culpas.

Basicamente estes conceitos nós conhecemos, pois aprendemos a partir da fala de nossos catequistas, nas homilias em algum escrito, mas ser santo vai além disso.

Pode ser que o nosso leitor já esteja desanimado de ser santo, pois o conceito é muito ideal, um caminho difícil de galgar.

 

A santidade na Bíblia

Na Bíblia este assunto é bastante ampla e para cada época em que os textos foram compostos há seus nuances ou enfoques. Mas de forma muito simples e sintética a palavra para designar nas Escrituras o que é santo é kadosh, e significa corte, separação especialmente das coisas impuras, separado, sagrado, santidade, consagração, a qualidade do que é sagrado, santo, o Santo por excelência. Só Deus é Santo (Is 6,3;Lc 1,49; Jo 17,11; Ap 4,8;6,10).

No Apocalipse encontramos: “Santo, Santo, Santo”, isto é, aquele que é completamente santo. No entanto, santidade não é algo somente para Deus, o povo de Israel é convidade a ser santo: “sede santos, porque eu Javé vosso Deus, sou santo” (19,2). E a Deus deve se consagrar somente aquilo que é bom (Dt 17, 1-2). Nas páginas do Novo Testamento Jesus é santo (Lc1,35), o Santo, o Santo de Deus (Mc 1,24; Jo 6,69) e é modelo para todos os seus seguidores.

 

Entender o santo no seu contexto

Muitos afirmam que os santos são modelos ultrapassados, pois foram pessoas que viveram num determinado tempo histórico. Outros vêm os seus feitos, especialmente a vida mística e a ascética rigorosa como loucura. Há aqueles que querem aplicar nos moldes deles o que viveram, para os dias de hoje. Aqui é preciso ter discernimento. Não podemos deslocar determinado santo/a da sua realidade histórica, ele respondeu aos problemas ou viveu uma espiritualidade do seu tempo. Todavia, isso não pode ser descartado ou esquecido. Aí pode surgiu outra pergunta: então para que declarar alguém ou o que serve o ensinamento desta pessoa? Vale lembrar que até hoje a Igreja recorda o ensinamento de Agostinho, Tomás, João da Cruz, Teresa d’Ávila e muitos outros...

O santo recorda-nos sempre a fidelidade ao Deus da vida que permeia toda a história e vai além do tempo e da história. É vida na vida de Deus e que se transforma em vida doada para os mais frágeis. Assim, a santidade recorda-nos que não é algo descartável ou modismo, conforme nos propõem a sociedade pós-moderna. Os santos ainda são modelos a serem seguidos, pois foram pessoas, que, na sua humanidade, lançaram-se no abismo da fé e deixaram cair nos braços de Deus.

 

Santo a partir do próprio jeito de ser

Ser santo é ser muito humano. Portanto, o primeiro pressuposto para ser santo é viver com intensidade aquilo que é humano com as suas contradições que lhe são próprias, buscando a cada dia superá-las, nascendo de novo cada dia. Isto se diferencia daquela visão de perfeccionismo que massacrava a dimensão corporal da pessoa. Portanto, cada pessoa pode ser santa a partir do seu corpo, do seu ser.

O santo é humano e na sua caminhada vai configurando o seu ser ao ser de Deus, entregando-se. É alguém que tem coração bom, que ama muito, é capaz de consumir sua vida a outrem. Está em contato com a realidade, não é alguém que despreza o mundo, todavia despreza as injustiças e as contradições deste mundo. Busca superar as dimensões de pecado, aquilo que desvia do seu alvo, Deus mesmo. Está sempre em confronto com as suas estruturas perversas, lutando contra elas. Um exemplo eram os Padres do Deserto que chamavam essas forças de demônios.

 

À procura do Caminho

Então, podemos afirmar que o santo é alguém inquieto, que vive em constante êxodo, põe-se a caminhar todos os dias à procura de Deus.

A carta de São Paulo aos Romanos apresenta-nos pistas para trilhar o caminho de santidade: amor fraterno, zelo e diligência, fervor de espírito, ser serviçal ao Senhor, alegre na esperança, forte na tribulação, perseverante na oração; socorrer os necessitados, ser hospitaleiro, abençoar os perseguidores, alegrar com os que se alegram, chorar com os que choram, relacionar-se com os outros e não se deixar levar pelo espírito de grandeza e a humildade (Rm 12, 10-16b). Esse encontro de vontades: humana e divina, é pascal, converte, renova e recria.

Nas páginas iniciais da Criação, encontramos: “façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança” (Gn 1,26). Se somos a imagem e semelhança de Deus, significa que somos potencializados a sermos santos, com Ele, Nele e para Ele no mundo. Então, santidade não é coisa inventada, está na índole do próprio ser humano e é possível a todas as pessoas e faz parte da aventura humana aqui nesta terra.

 

O cristão chamado a ser santo no mundo

Até antes do Concílio Vaticano II, santidade era coisa reservada ao papa, aos bispos, aos monges, religiosos e sacerdotes. Era um estado de perfeição, para poucos. Hoje, a Igreja relembra-nos que a santidade é universal. Isto quer dizer que os leigos/as devem e podem buscar esse caminho e propô-lo a outros.

Começa-se pela vida cristã, que acontece na família, no compromisso com a comunidade e no desejo de transformar as realidades de morte em vida.

A nossa sociedade está carente de bondade e necessita de sangue novo que proponha mudanças qualitativas nas relações individuais e comunitárias, no agir ético, no pensar o bem comum. Santo não é quem destrói, é aquele que sempre está reconstruindo e a nossa sociedade cada dia se degenera com tanta morte, com tanta violência, com tanta opressão.

Pe. Rogério Gomes, C.Ss.R